Do chão brotava o lodo, o carvão, e com lodo, o lodo lavava
Pegava o lodo e esfregava as mãos, e as mãos no lodo, lodo escorregava.
Braços e dorso refrescados e mãos, que mãos e dorso o lodo esfoliavam
Vencia o lodo a concha das mãos, aquele lodo que o lodo lavava?
Vencia o lodo a concha das mãos, aquele lodo que o lodo lavava?
Lodo encalacrado até o rés do chão, de braços destemidos que seu lodo escavava.
Trabalho de mãos, de músculos vivos e ágeis, ativando na fronte a funda marca
Que buscava o lodo no lodo do chão, como se no chão um tesouro encontrava.
Que milagre, do lodo se tirar o pão! O pão que, mais que sensação , é realidade.
O frescor do trigo colhido do chão, do asfalto negro, aquilo era um milagre!
O lodo que do lodo colhia o “cidadão”, era água viva que do poço jorrava,
Quem precisa de lodo que salva, a não ser aquele que deseja lavar-se?
Limpar-se como homem, como anjo ou como um irmão, é preciso necessidade, destemor, coragem.
Do lodo fomos feitos e ao lodo tornaremos? Não. Do lodo fomos feitos, mas algo é inconteste: somos pequeninos, e esse lodo lava-se, nas fontes do amor, que torna branca as vestes.

