quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O Lodo que lava o lodo


Concha de mão, mão em concha, colhia o lodo e o lodo era o alvo

Do chão brotava o lodo, o carvão, e com lodo, o lodo lavava

Pegava o lodo e esfregava as mãos, e as mãos no lodo, lodo escorregava.

Braços e dorso refrescados e mãos, que mãos e dorso o lodo esfoliavam

Vencia o lodo a concha das mãos, aquele lodo que o lodo lavava?

Todo lodo é liso, ondulado não. Mas aquele lodo era um lodo encravado

Lodo encalacrado até o rés do chão, de braços destemidos que seu lodo escavava.

Trabalho de mãos, de músculos vivos e ágeis, ativando na fronte a funda marca

Que buscava o lodo no lodo do chão, como se no chão um tesouro encontrava.

Que milagre, do lodo se tirar o pão! O pão que, mais que sensação , é realidade.

O frescor do trigo colhido do chão, do asfalto negro, aquilo era um milagre!

O lodo que do lodo colhia o “cidadão”, era água viva que do poço jorrava,

Quem precisa de lodo que salva, a não ser aquele que deseja lavar-se?

Limpar-se como homem, como anjo ou como um irmão, é preciso necessidade, destemor, coragem.

Do lodo fomos feitos e ao lodo tornaremos?  Não. Do lodo fomos feitos, mas algo é inconteste: somos pequeninos, e esse lodo lava-se, nas fontes do amor, que torna branca as vestes.

Que nosso irmão que inspirou esse texto haja lavado o corpo, no lodo. Mas que lhe haja sido alvejada a sua alma!