E isto não passará logo
Sou sim, proprietária de um veículo de “passeio”. Vivo e dirijo na cidade de São Paulo, desde 1989. Antes era uma cidadã “quase” respeitável. De lá para cá sou vilã. Como assim? Ora, sou proprietária de veículo. Vi campanhas fenomenais em todas às mídias, com todo apelo imaginável para que comprasse um carro: o mais bonito, o mais charmoso, o mais veloz, o mais vendido, o campeão em desempenho, o simplesmente melhor, o mais barato, o melhor financiamento, (aquele sem entrada e o pagamento a perder de vista, com juros baixinhos, a primeira parcela só no ano seguinte, bancos de couro, reclináveis, vidros elétricos, trava de seguranças, freios ABS, Air Bag, sistema de alarme antifurto e tudo mais.
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| Foto: Reprodução |
Entrei nessa. Comprei, de lá para cá, vários veículos. Com o primeiro o meu martírio começava: impostos altíssimos, espera para entrega após meses, recalls vários por defeito na fabricação etc. Vi os bolsos dos metalúrgicos se encherem, montadoras aceleradas, greves imensas, parque industrial se modernizado, carros sendo nominados de “carroças” (parece que foi o único acerto do governante autor dessa verdade), explosão de fabricação e vendas, recordes de exportação e importação, acordos bilaterais com nossos “irmãos latinos” para fazer render mais os negócios com os tais veículos etc. etc.
Noticias bombam nas mídias dando conta de que milhares de carros jogados no tráfego todos os dias. Novas vias? Não. Sinalização, não. Lombadas, uma febre! Milhares, de 20 em 20 metros uma, SEM PINTURA. Faróis apagados com o primeiro ronco de um trovão ou com um pingo de chuva, buracos de meio em meio metro, (muitas vezes sem nenhuma sinalização), malha viária sem conservação, sempre, velocidade quase zero, arrastões, tiroteios, menos velocidade ainda, paradeira total, recorde de congestionamento batido a toda hora. Motoristas reféns desse caos.
Vem o rodízio, INSPEÇÃO VEICULAR OBRIGATÓRIA (para carros novos), os velhos não! Marronzinhos em cada esquina ou atrás de cada poste, multa que multa! Organizar o trânsito? Que nada!
Os caminhões? Enormes cada vez mais altos. Gigantes! Não cabem nas pontes, nem nas faixas de rolamento. Derrubam passarelas e ficamos sem a via ainda por meses ou anos. Uns podem rodar na hora de Rush (muitos e muitos), outros mais enormes ainda não. Só depois das 10. Dão medo mesmo, pela altura e comprimento (transporte Ferroviário é quimera).
Mas chegam as MOTOS (inumeráveis surgem do dia para a noite como moscas)! “Cachorro louco”, espelhos arrancados, dedos médios em riste para todos, (PASSAM NUM PI,PI,PI,PI, INFERNAL), faixas mais estreitas para o motorista do veiculo, não dá para vê-los no retrovisor; motoqueiros (por que não dizer mortoqueiros), a cada hora e em qualquer via: “ta lá o corpo estendido no chão”, com o carona é perigoso, pois ninguém é capaz de pegá-los em fuga.
E surgem os ciclistas, mais afoitos ainda, andam na contramão, não param nas faixas, nem nos faróis, não têm buzinas. (Mais corpo estendido no chão). Haja freios ABS para tantas surpresas!
Aparecem os SKATISTAS, PATINS E ROLEMÃNS para barbarizar, quebrar tudo! Multa não, nem rodízio, nem pedágio e nem nada. Ganham corredor especial. Mais veículos parados, engaiolados, engessados na sua vil faixinha, estreita, mais estreita a cada dia. Que fim de semana com a família que nada, se quiser que vá de bike! Não vai chegar. Vai perder o passeio. Fique em casa, peça uma pizza, vem de moto.
Motorista respeite o pedestre! Pedestre e abuse da faixa! Pedestres se lançam na frente dos veículos em qualquer lugar e hora feito pipoca estourando na panela. Breca, breca!
Estacionar na rua! Impossível. Zona azul, quanto? Tá, mas cadê a vaga? Rode, dê voltas, gaste combustível (é barato!) e é fácil voltar. Veja a placa de direcionamento. Para onde? Não queria vir pra cá, mas fui jogado. Estacionamento, legal! Quanto? ½ hora R$ 17,00. Se ficar 05 minutos também custa isso. Sem problema, não há regulamentação. É negócio privado. Coisa de oferta e procura, certo?
Janeiro chega, IPVA. Quanto? Não pode ser. É, pague logo e tenha um descontinho, pois o governo precisa de grana.
DETRAN, onde? Quanto tempo? Só despachante consegue rápido.
Vou vender. Laudo de certificação, tudo isso? Preço? Quase dado para uma venda segura em revendedora.
Tem bala? Para onde? Não, isso é para o Rio.
Bem, relaxe, motorista, ligue o rádio, não buzine! Seja cordial, dê a vez para o outro entrar. Respeite a faixa de pedestre, mesmo que ele invada o farol quando você está passando. Precisamos de paz no trânsito e diminuir o número de acidentes. Afinal você é dono de um veículo de passeio.
Quer as autoridades que deixe seu carro em casa e seja lançado num vagão de metrô ou de trem, que estão em colapso também. Qual a razão? Você sabe, mas não diga. Eles dão preferência para o transporte público não é? Vão espremer tanto a sua faixa de rolamento que seu carro irá parar de volta em casa.
Enfim, motorista de carro de passeio, você é um perfeito vilão! É o culpado por tudo isso, seu VILÃO DA VEZ... Vou lhe punir com o pedágio urbano para aprender a não sair de carro para trabalhar!
E diz a Carta Magna Brasileira que temos o direito de ir e vir. Rs.rs.rs. e lágrimas.
Marivan.
Maria Vanda A. Silva
