Ode Aos Ratos
Chico Buarque
Rato de rua
Irrequieta criatura
Tribo em frenética proliferação
Lúbrico, libidinoso transeunte
Boca de estômago
Atrás do seu quinhão
Vão aos magotes
A dar com um pau
Levando o terror
Do parking ao living
Do shopping center ao léu
Do cano de esgoto
Pro topo do arranha-céu
Rato de rua
Aborígene do lodo
Fuça gelada
Couraça de sabão
Quase risonho
Profanador de tumba
Sobrevivente
À chacina e à lei do cão
Saqueador da metrópole
Tenaz roedor
De toda esperança
Estuporador da ilusão
Ó meu semelhante
Filho de Deus, meu irmão
Rato
Rato que rói a roupa
Que rói a rapa do rei do morro
Que rói a roda do carro
Que rói o carro, que rói o ferro
Que rói o barro, rói o morro
Rato que rói o rato
Ra-rato, ra-rato
Roto que ri do roto
Que rói o farrapo
Do esfarra-rapado
Que mete a ripa, arranca rabo
Rato ruim
Rato que rói a rosa
Rói o riso da moça
E ruma rua arriba
Em sua rota de rato
É oportuno ouvirmos, novamente, essa música. Nos intriga o fato de seu autor haver, liberalmente, declarado seu voto e o porquê dele.
A mim intriga o fato de manifestar, tão bem, e também, nessa música todo o estado de coisa pelas quais passamos e REPUDIAMOS, veementemente, no Domingo passado, 15 de março.
E aí surge uma dúvida? De quem ou de que estava ele falando?
Só sei que cabe como luva na nossa história mais atual.
Até mais ver...
Maria Vanda