sexta-feira, 11 de julho de 2014

Mística, um breve pensar

O que me instigou a escrever esse texto foi uma questão levantada, em classe, sobre se era possível haver experiência Mística a quem se diz ateu, isto é, aquele que, querendo, fica apartado da idéia de Deus.

Ao tentar entender esse questionamento verifiquei que não é tarefa fácil se falar sobre Mística, e, muito menos, expor sobre sua vasta compreensão.

A minha limitação, entretanto, não  impediu de pensar, pesquisar e tentar discernir, minimamente, sobre o assunto.

Ao por os olhos no limiar do assunto, Mística, me sinto afortunada. Nem sempre somos instados buscar e termos oportunidade de poder nos deleitar com tantos textos tão belos, belíssimos, pensados por tantos filósofos e teólogos, que me levaram, não só a me aproximar mais do nosso Criador, mas também conhecimento e certeza de que Ele está, sempre, perto de nós, nos aguardando, pacientemente, até que o descubramos e queiramos estar, ficar e permanecer, em sua perfeita companhia.

Neste texto, não posso, sequer, me enveredar pela tentativa de conceituar Mística. Buscar seu alcance e extensão, onde se ela encaixa no que concerne ou o que ela encerra é assunto para experts.

Seria uma aventura poder inserir mais do que este texto permite-me, pois o trabalho exige uma acuidade, cientificidade e extensão que não cabem aqui, nem só neste momento.

Mas, mesmo com toda essa limitação, não se pode falar sobre Mística sem pelo menos perguntar: o que é Mística? É uma Ciência? Trata-se de uma crença, de um poder pessoal e individual de quem a pratica? E qual o seu objeto? 

A Mística é comumente observada como um acontecimento, uma ocorrência, ocorrente no mundo daqueles que se relacionam com uma crença (em um Ser superior, Deus).

Ela não é observada, apenas no Cristianismo. Ela também tem lugar nas religiões Judaica, Islã e outras, apesar de sofrer, em cada uma, especificidades e particularidades, próprias.

A Mística nas suas origens, não era assim denominada. Ela era antes identificada por uma prática, ou seja, a observância de um modo especial de vida de seu praticante, que expressasse uma consciência direta da presença de Deus em suas vidas. Portanto há, nos místicos, esse elemento comum: Observância de vida crente, dedicada e direcionada para uma finalidade: estar na presença constante de Deus.

No cristianismo primitivo, há quem afirme que a prática da Mística esteve presente desde sua origem; mas uma teoria da Mística, somente surgiu através de Orígenes, (místico no século III), tendo encontrado dinamismo e aperfeiçoamento, indiscutivelmente, no fenômeno do monaquismo, a partir do século IV e se expandido no século XII. Floresce nos século XIII a XVI, com novas formas de vida e práticas religiosas. Experimenta uma certa crise a partir do século XVII, que persiste até nossos dias.

Orígenes - Séc. III
Então é certo que há um pouco de dificuldade em se conceituar a Mística. Mas usualmente, considerando-se que se trata de uma prática, como elemento de uma religião, poderíamos arriscar em dizer que: 

“A Mística é a experiência individual ou pessoal de encontro ou união do “crente” com Deus”. Um fenômeno. Não ciência, não religião, mas um elemento que serve aos religiosos.

É claro que esse conceito não está esgotado. E nem tampouco afastados inserção de outros possíveis elementos históricos ou teológicos, especialmente, na contemporaneidade, que reivindica conhecimentos mais completos e críticos da história da mística; (falam da cristã). Assim como não prescinde, também, de avaliações teológicas contemporâneas, igualmente mais completas e crítica do fenômeno.


 
A Mística, pois, é entendida, comumente, como um fenômeno, uma ocorrência e tem como objetivo uma forma de união com Deus. Particularmente uma união de absorção ou identidade na qual a personalidade humana se perde (em si), nessa ocorrência. Toma, assim, uma feição de transcendência. 

Na realidade, em todo cristão, ou religioso (isto para não deixar de fora praticantes de outras religiões), há um desejo, (mesmo que não propalado), de unir-se a Deus, ser um com Deus. Como o corpo mortal não possui o ser, deseja então essa união perfeita com Deus que É.

Através da Metanoia, o homem volta-se para Deus no desejo e na esperança de ser e de ter um encontro com a essa Máxima Realeza. E aí, no dizer de Santo Agostinho, Deus que escava as almas, permite a alguns, uma experiência mística, possibilitando um inexprimível encontro com Ele.

Nesse mistério o filho (criatura), deve curvar-se, colocando-se aos pés do Pai, (o criador), recebe o favor imerecido ou a condescendência sempre caridosa, pela união da graça com Deus.

Essa misericórdia da graça é dada àqueles pecadores, (acrescentamos batizados), que crêem no Evangelho e obedecem ao Senhor, como afirma a Sagrada Escritura nos Atos 11.23; 20.32; 2ª Coríntios 9.14.

Os cristãos primitivos já usavam a palavra graça, (Chen, em hebraico), quando se reuniam e se saudavam (Romanos 1.7; 1ª Coríntios 1.3; Gálatas 1.3). Então, para o cristão a graça de Deus é farta, mas dada segundo sua própria vontade e não a quem a deseja.

Os autores, em sua maioria, dizem que o místico, como qualquer religioso, não pode prescindir da fé. Pois é pela fé que a carne se eleva até o Verbo (o único mediador entre o Pai e os homens).  E nesse entregar-se, certamente, fica à mercê da graça.

No domínio espiritual, somos livres para auto criarmo-nos e livremente esculpindo-nos. Mas a matéria prima deve ser sempre sob o poder do amor divino. Com esse ingrediente não há falha provável. (Cf. CLEMENT, Oliver. Fontes - Os místicos cristãos do primeiro século. Ed. Subiaco p. 25).

Mas Deus não pode ser captado a partir do exterior, como um objeto, porque não há um exterior em relação a Ele, ou seja, o Criador não se justapõe à criatura, como diz Santo Agostinho.

A contemplação a Deus não se dá, se estivermos a Ele fechados a sua palavra e a sua sabedoria.

Devemos nos deixar apreender por Deus, a Ele nos abrir a sua revelação, apresamento e deslumbramento, porque Ele é o incompreensível poder e o inexprimível com palavras. Não podemos conhecê-lo através da inteligência ou dos sentidos corpóreos, pois Ele supera todo o conhecimento e inteligência e os próprios sentidos.

Podemos abrir nossos corações e espíritos, nos oferecermos como morada de Deus e deixar que Ele possa dialogar conosco. Isso é caminho.

Dizemos que Deus é transcendente. Mas a nós nos escapa até a nossa noção de transcendência. Diz Maximo Confessor que, Deus transcende sua própria transcendência, não para ser perder em algum nada abstrato, mas para se doar.  Daí o caráter inesgotável da transcendência de Deus.(  Ibdem, Fontes, pg.32).

Deus, para os cristãos revela-nos seu mistério, (mistério da encarnação), pela carne, em Jesus Cristo, dando um profundo sentido ao Verbo e nos enveredando no caminho do seu conhecimento e do sentido da nossa salvação e nossa eternidade.

Salomão, em seu Ode n.07, assim diz:

“Seu amor por mim humilhou sua grandeza.
Ele se fez semelhante a mim para que eu o receba,
Fez-se semelhante a mim para que eu possa revestir-me dele.
Ao vê-lo, não tive medo porque ele é misericórdia para mim.
Assumiu minha natureza para que eu o compreenda, 
Assumiu o meu rosto para que eu não me afaste dele.

O pecado original não foi suficiente para afastar o Criador de sua criatura, a qual dedicou tão incompreensível e misterioso amor.

Com a plenitude dos tempos, Cristo nos resgata da morte e nos devolve remissos, ao Criador, pela ressurreição e eucaristia; tudo para que se cumpra o fim para o qual tudo foi criado e poder retornar a criatura ao seu Criador, agora santificada pelo Espírito.

Dito isso, a questão intrigante do início, não pode ser respondida, senão considerados certos critérios, certas posturas humano-espirituais, donde envolve um “facere”, no espírito, para que alguém possa se unir a Deus, manter com Ele um diálogo, compreender sua presença e seguir suas pegadas até aonde Ele deseje nos levar.No mínimo deve haver um abandonar-se na vontade e no amor do Criador e apenas abandonar-se, sem esperar que Ele nos responda dentro do nosso tempo.

Mas Deus sempre está conosco, queiramos ou não, e somente Ele pode nos dar tudo e aquilo que muitas das vezes nem sonhamos em possuir.

Daí Saulo (Paulo, o Apóstolo) ter sido contemplado com a experiência mística mais contundente da história do cristianismo e através dela ter se convertido e seguido, com primor, o que Deus lhe ordenara e permitira. (Apenas com o fito de esclarecer o leitor informamos que há autores que entendem ter havido no episódio de Saulo, não uma experiência mística, mas um encontro com o ressuscitado, o Cristo histórico).

Não sei se voltaremos mais ao tema, em si, mas foi isso que pude extrair nesse minguado trabalho.

Maria Vanda A. Silva